Enquanto nos aventurávamos pelo mundo afora, eu e minha banda, chamada Epilepsia Verbal, adquirimos muitas histórias insanas, alucinadas e até mesmo dementes para contar. Uma dessas histórias, que eu considero a mais alucinada, se passa no Pólo Norte, onde fizemos o 29º show da turnê, e será narrada a seguir.
Estávamos hospedados no hotel Gloomy’s Gloom, que não era nenhum hotel luxuoso, mas era bem descolado. Como não tínhamos nada para fazer, ficávamos no quarto, discutindo o repertório, falando sobre os shows, conversando, tentando compor novas músicas, fumando, você sabe...
Mas enfim, estávamos passando uns quatro dias em cada cidade que fazíamos show, para conhecer novas culturas, novas pessoas, ter novas experiências. O show naquele pequeno vilarejo até que foi bom, o público lotou o estádio onde tocamos. Aliás, o estádio mais parecia uma geleira, pois grande parte do público era pinguins, leões marinhos e iaques.
Logo após finalizarmos o show, fomos para o camarim, já exaustos. Chegando lá, vimos que tinha uma ilustre visita nos esperando: Papai Noel. Nenhum de nós acreditava que ele existia, e vendo-o ali, bem na nossa frente, cheguei até a pensar que fosse algum bobo querendo zoar conosco, mas era ele, o Papai Noel, de verdade.
Passamos bastante tempo ouvindo as histórias que Noel tinha para contar, e digamos que ele tinha muitas, considerando que todo ano ele dá a volta ao mundo em uma noite. Noel é muito engraçado, e também muito irônico... Ele definitivamente é uma pessoa que todos deveriam conhecer. Nos convidou para um passeio pela cidade, mas não um passeio turístico, era mais como um dia típico dos moradores do Pólo Norte. Claro que nós não íamos recusar uma oferta dessas, e ainda mais que depois Noel ia nos levar na casa dele.
No dia seguinte, acordamos com um barulho de conversa alta, vindo de fora da janela. Fui ver o que era, por que era impossível ter alguém lá fora – estávamos no 75º andar –, e quando abri a janela dei de cara com renas que pareciam furiosas. Estavam nos esperando fazia tempo, e não só pareciam como também estavam furiosas.
Saímos com o Noel, ele nos levou ao centro comercial do Pólo Norte, e apesar do frio, foi muito divertido o tempo que passamos lá. Entrávamos em todas as lojas, mas uma em especial chamou minha atenção. Ela se chamava Poephagus Grunniens, e era uma loja de gelo. Não, não era uma loja do tipo que vende mil e uma coisas, era uma loja que vendia apenas gelo. O vendedor nos mostrou os vários tipos de gelo que eles revendiam, explicando qual o uso para cada tipo. Achei alguns que eu conhecia, como um tonel de geada, uma bolsa enorme de granizo, vários tonéis de neve, e tinha até uma fonte de orvalho lá. Sid, o baixista da banda, pediu ao vendedor qual era a funcionalidade do gelo, e o vendedor nos esclareceu que o gelo é usado para todos os fins lá no Pólo Norte: em moradias, para consumo, e também é a fonte de vida para muitos animais nativos de lá.
Por fim fomos à casa do Noel, e então vi o lugar que antes eu considerava o paraíso: era como crianças imaginam que seja o céu, tinha um arco-íris cruzando a propriedade, e as árvores eram das sete cores do arco-celeste. Tinha doces em todos os lugares, e era tudo fofinho e coberto pela neve, assim como qualquer outro lugar no Pólo Norte. Definitivamente estávamos em um lugar mágico, porque mesmo com toda aquela neve, não sentíamos frio, e parecia que tudo que imaginávamos brotava do nada. A casa era imensa, tinha cor de algodão doce e tudo era perfumado.. Noel nos mostrou todos os lugares da propriedade, e nos levou para ver seus animais de estimação. Parecia que realmente estávamos no zoológico dos sonhos de uma criança, porque lá tinha até unicórnios de todas as cores, saltitando pelos gramados, seus chifres reluzindo à luz do sol. Sempre sonhava com o dia em que veria um unicórnio, então realizei meu sonho, e pude brincar e alimentar eles. Meu favorito era Charlie, um unicórnio roxo com listras prateadas, que era o mais animado do bando (isso não quer dizer que os outros não fossem animados, porque eles eram, e muito). Noel tinha cutias, chinchilas, iaques, girafas, elefantes, hipopótamos, leões, tigres, cordeiros, ovelhas, e muitos outros animais lá.
Mesmo sem termos visitado a fábrica de brinquedos do Noel, provavelmente foi a viajem mais mágica que a Epilepsia Verbal já fez, e se tiver a chance, eu voltarei lá algum dia para visitar Noel e o Charlie novamente, e garantir que ganharei um bom presente no Natal.


